O Monstro da Pizza




de Emílio Carlos

Era uma tarde como outra qualquer. Ou pelo menos parecia.
Dona Marlene ajudou seus dois filhos a fazerem as tarefas da escola. Depois eles tomaram o lanche da tarde. Então dona Marlene disse assim:
- Vou ali na cabeleireira e já volto. Quero que vocês fiquem aqui brincando. Vocês vão se comportar?
- Sim mamãe – responderam em coro Tampinha e Batatinha.
- Ah: e quando eu voltar vou fazer uma pizza – disse a mãe.
- Oba! – exclamaram as crianças.
Tampinha então foi ver o seu programa favorito na TV: As Aventuras do Capitão Nojeira. E Batatinha foi brincar com suas bonecas. Quando viu estava brincando de fazer pizza. E pensou:
- Hei: por que não fazer uma pizza de verdade?
Batatinha já tinha visto sua mãe fazer pizza tantas vezes que achava que podia fazer uma também.
- Por que esperar se eu posso fazer uma pizza agora?
E assim Batatinha foi até a cozinha, vestiu um avental, pegou uma tigela da dona Marlene e se sentiu muito crescida.
Primeiro pegou o trigo e virou o pote todo dentro da tigela. Depois colocou dois copos de óleo de soja. Depois colocou uma dúzia de ovos com casca e tudo dentro da tigela. Daí se lembrou que a mãe também usava sal e açúcar pra equilibrar a massa. Por isso pôs uma caneca de açúcar e um copo de sal na tigela.
Mas parecia que ainda estavam faltando ingredientes.
- Bem: pelo que eu me lembro a mamãe põe um pouco de tudo que tem aqui na cozinha...
E assim dizendo Batatinha foi abrindo as portas dos armários da cozinha e foi colocando tudo que encontrou: um pouco de canela, um vidro de pimenta, um vidro de mostarda, outro vidro de catchoup.
Depois abriu a geladeira, pegou dois tomates e cortou em rodelas. Pegou também toda a mussarela que estava numa vasilha e jogou no meio da massa. Misturou presunto, maionese e uma lata inteira de fermento.
Dona Marlene sempre dizia que tinha um segredo pra massa ficar assim tão gostosa e electrizante. Batatinha não se lembrava qual era o segredo. Então abriu um outro armário e pegou: pilhas, pasta de dente e cola. E jogou tudo dentro da massa.
Ligou a batedeira e bateu um pouco tudo aquilo. A mãe sempre colocava a massa no forno do fogão. Mas Batatinha pensou:
- Hum... Por que demorar tanto se eu posso ser mais rápida? Vou colocar tudo no forno microondas!
Dito e feito: esparramou aquela estranha massa numa forma de pizza, pôs no forno microondas e ligou na potência máxima.
- Só vai demorar um minutinho – disse ela feliz da vida.
Foi quando o Tampinha chamou:
- Batatinha: vem cá ver o que o Capitão Nojeira está fazendo.
- Já vou! – respondeu ela tirando o avental e correndo para a sala de TV.
Enquanto isso a estranha massa de Batatinha crescia no forno. Crescia. E crescia. A mistura foi crescendo tanto que encheu todo o forno microondas. Logo a porta do forno não aguentou mais e se abriu. E a massa continuou a crescer escorrendo para o chão, até que o microondas se desligou.
De repente Tampinha e Batatinha ouviram um estrondo vindo da cozinha.
- O que você estava fazendo? – perguntou Tampinha.
- Nada. Só cozinhando – respondeu inocente Batatinha.
Os dois correram até a cozinha. E quando chegaram lá viram a cena mais terrível de suas vidas: a cozinha estava toda suja de massa de pizza. Numa das paredes havia um buraco enorme que parecia exactamente a silhueta de um...
- MONSTRO!!! – gritaram os dois irmãos apavorados.
Olharam para fora da casa e um rastro de massa de pizza saia do quintal em direcção à rua.
Os dois irmãos pegaram suas bicicletas e saíram correndo, seguindo as pegadas da massa de pizza. De repente viram à sua frente um terrível monstro de massa de pizza, com seus olhos de tomate, sua boca de pilha alcalina e seu formato disforme de massa mal cozida.
- Da próxima vez que você for cozinhar me avise que eu saio junto com a mamãe – disse Tampinha.
- Engraçadinho – retrucou Batatinha.
O monstro se dirigiu até a pizzaria do bairro. Os funcionários da pizzaria mal podiam crer nos seus olhos e trataram de fugir dali. Foi sorte porque o monstro arrancou o telhado da pizzaria e começou a comer. Primeiro atacou todas as massas de pizzas e os recheios. E quando isso acabou começou a comer as cadeiras da pizzaria.
Junto gente do bairro inteiro pra ver o monstro. E todos olhavam apavorados para aquele apetite voraz do monstro com cheiro de orégão.
Tampinha pegou uma pedra, a maior que encontrou, e atirou contra o monstro com seu estilingue. A pedra entrou dentro daquela massa e ficou. E o monstro nem sentiu.
Diante disso Tampinha sacou de mini-computador de bolso.
- Ei! Não é hora de jogar joguinho! – esbravejou Batatinha.
- Nada disso. Eu vou é fazer cálculos. – respondeu Tampinha.
Colocando seu computador pra funcionar Tampinha descobriu que a combinação dos ingredientes que Batatinha colocou mais a radiação do microondas na potência máxima criaram o monstro.
Enquanto isso o monstro da pizza comia as mesas da pizzaria. Mas passou direto por uma caixa cheia de detergente.
- É isso! – exclamou Tampinha.
- O que? – quis saber Batatinha.
- Quando a mamãe quer limpar a sujeira o que é que ela usa?
- DETERGENTE! – disseram os dois juntos.
Então pegaram suas bicicletas, foram até o mercadinho e pegaram 2 caixas de detergente.
- Depois eu pago, seu Zé! – disse Tampinha montando em sua bicicleta.
Os dois irmãos sabiam que agora dependia deles. Porque o monstro da pizza estava acabando de comer a última mesa e já procurava outro alvo para atacar. Então pegaram seus estilingues e começaram a disparar vidros de detergente contra o monstro.
Dessa vez o monstro sentiu e se virou contra eles.
- Mais rápido, Batatinha! – disse Tampinha disparando mais detergente.
Eles já tinham usado uma caixa de detergente e parecia que não estava surtindo efeito.
- Tem certeza que seus cálculos está certos?
- Claro Batatinha. O monstro já devia estar derretendo.
O monstro começou a se movimentar na direção dos dois. Era óbvio que ele queria jantar os dois irmãos e a bicicleta de sobremesa.
Tampinha e Batatinha continuavam atirando detergente contra o monstro. Então de repente ele começou a diminuir. E diminuir. E diminuir.
- Está dando certo, Tampinha!
- Continua Batatinha!
O detergente estava destruindo a estrutura molecular do monstro da pizza. Ele derreteu e derreteu, mas ainda continuava se aproximando de Tampinha e Batatinha. Sobravam apenas 2 vidros de detergente.
- Tem que ser agora! – gritou Tampinha.
E os dois dispararam os últimos detergentes contra a boca do monstro, que acabou de derreter. Seus olhos de tomate então caíram um na cabeça do Tampinha e outro na cabeça da Batatinha.
- Argh! Que meleca! – disse Batatinha.
- Legal! Me sinto o Capitão Nojeira! – disse Tampinha.
Tampinha e Batatinha ganharam uma salva de palmas da multidão, aliviada com o fim do monstro. O dono da pizzaria tinha seguro contra monstro e por isso não se desesperou com os prejuízos. Ao contrário, lançou uma promoção chamada kit-monstro: você comprava uma pizza e ganhava junto um bonequinho do monstro.
A TV veio entrevistar os dois.

Enquanto isso dona Marlene chegava em casa e via a situação de calamidade em que sua cozinha se encontrava. Levou muito tempo para os dois explicarem a ela o que tinha acontecido. E ela só acreditou quando viu a matéria no jornal da TV, junto com o pai, seu Marcelo.
O pai e a mãe decidiram que a Batatinha precisava de um castigo, pra aprender anão mexer mais na cozinha sem ordem da mãe. E proibiram Batatinha de entrar na cozinha por um mês.
No começo Batatinha ficou meio triste. Mas um dia mexendo na lavanderia da mãe ela descobriu diversos tipos diferentes de detergentes, alvejantes e sabões em pó. E pensou:
- Aposto que eu posso criar um super-detergente. É só misturar todos esses produtos.
Pegou o maior balde que a mãe tinha e começou a misturar tudo. Sorte que dessa vez o Tampinha viu e avisou a mãe antes que a Batatinha criasse... o terrível monstro-detergente.

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