O menino que não gostava de desenho



de Emílio Carlos


O Marquinhos tinha 9 anos. Mas estufava o peito pra parecer que tinha mais.
- Eu tenho 12 anos e meio. Quase 13 – dizia o Marquinhos para os colegas da escola.
Os colegas ficavam impressionados e diziam:
- Oooohhhhh!
E o Marquinhos sorria, vitorioso.
Um dia a Aninha – uma menina da classe – se irritou com aquela conversa e disse:
- Como é que você pode ter 12 anos se ainda está no 4º ano? – e sorriu achando que finalmente tinha pego o Marquinhos em flagrante.
Mas o Marquinhos nem piscou. Pensou super-rápido e respondeu:
- É que eu já repeti de ano uns 5 anos seguidos.
Os colegas até prenderam a respiração nessa resposta. Daí a aninha continuou:
- Ah é? E como é que você pode ser mais velho se tem o mesmo tamanho que eu, hein?
Por essa o Marquinhos não esperava. Essa era mais difícil de responder. Mas ele tinha fama de ter resposta pra tudo. Pensou em alguma coisa e respondeu:
- É que eu fiz um acordo um ET do planeta Zóide: eu só vou crescer quando eu quiser.
Os colegas aplaudiram euforicamente. O Marquinhos era um herói pra eles. Tinha gente que queria crescer logo só pra ser como o Marquinhos. O Luizinho até puxou a camiseta do Marquinhos e perguntou:
- Me apresenta a esse ET do planeta Cóide?

Em casa também era assim. O Marquinhos sempre dava uma de garoto grande. Comia com as pernas abertas e as costas tortas, porque viu um adolescente de 16 anos fazer isso num filme. Uma vez quis até arrotar depois de comer. Achou que ia impressionar sua irmãzinha, a Carolzinha, que só tinha 5 anos. Fez pose e disse assim:
- Carolzinha: agora você vai ver uma coisa que só um homem adulto consegue fazer.
A irmã olhou curiosa. O que seria? O Marquinhos fez pose, bateu no peito e preparou todos os músculos para aquele que seria o maior arroto de todos os tempos. Ele podia sentir que estava vindo, estava vindo, estava vindo. Foi aí que a mãe deles voltou da cozinha e percebeu tudo.
- Nada disso, seu Marcos! – berrou a mãe bem na hora H.
O Marquinhos teve que engolir tudo na hora. E esse foi o ponto mais baixo da sua carreira de pretendente a adolescente.
Um outro dia a Carolzinha queria assistir desenho animado na TV. E o Marquinhos emburrou:
- Mãe: eu não quero. Isso não é filme pra adolescente.
- E desde quando você é adolescente, Marquinhos? – indagou a mãe sorrindo da pretensão do filho.
- Desde a semana passada – respondeu Marquinhos sem perder a pose.
A mãe não se deu por vencida e pegou um DVD de desenho na estante. O Marquinhos ficou pálido:
- Não! Esse desenho é pra bebê!
- Mas Marquinhos: você sempre gostou desse desenho, meu filho.
- Mãe: isso foi quando eu era criança. Agora eu já sou adulto – replicou o Marquinhos.
- Mas filho: é o desenho do coelho Pernafina... – argumentou a mãe.
O Marquinhos não podia acreditar. A mãe não tinha percebido que ele tinha crescido? Ele já era adulto. Não dava mais pra assistir o coelho Pernafina. O que seus colegas da escola diriam dele?
- Eu ainda sou criança e quero ver o coelho – disse Carolzinha.
- Você vai ver – respondeu a mãe colocando o disco no aparelho de DVD.
O Marquinhos até saiu da sala. Revoltado foi para o quarto fazer uma coisa que só os adultos faziam: jogar videogame. E ficou ali durante todo o tempo em que o coelho Pernafina estava na TV. E foi um tempo bem longo – porque a Carolzinha viu e reviu o DVD.
Mais tarde a mãe bateu na porta do quarto do Marquinhos e em seguida abriu a porta.
- Eu e a Carolzinha vamos ao supermercado – disse a mãe.
- Fazer compras e andar naqueles carrinhos de plástico que tem uma direção falsa – completou Marquinhos com total desinteresse.
- Isso mesmo – disse a mãe. – Quer vir com a gente?
- Mãe: andar nesses carrinhos é coisa pra bebê. Eu já sou homem crescido.  – replicou o Marquinhos.
- Mas você sempre gostou de andar nesses carrinhos. Eu deixo você empurrar sua irmã. Que tal? – indagou a mãe querendo agradar.
- Mãe: não me faça pagar esse mico, vai?
- Mico? Cadê o macaco pra gente pagar? – disse rindo a mãe.
O Marquinhos se jogou na cama e colocou o travesseiro na cabeça. Estava aborrecido. Parecia que ninguém entendia um adolescente adulto de 9 anos.
A mãe deu de ombros e saiu com a Carolzinha para o supermercado. Quando o Marquinhos percebeu o carro saindo da garagem correu até a janela e gritou:
- Mãe: traz um aparelho de barba pra mim!
Mas a mãe não ouviu e o Marquinhos se jogou na cama de novo. O mundo não estava preparado para um adolescente maduro como ele. Mas ele era como ele era, e não tinha como mudar. Não podia evitar ser ele mesmo. Fazer o que?
Com a casa só pra ele Marquinhos foi até a sala. Se organizou pra ver seu filme preferido e pegou um álbum na estante. Sentou-se no sofá, apertou a tecla Play do controle remoto. E passou uma hora feliz vendo o coelho Pernafina e as fotos da sua infância.

  (Fale com o Autor - emiliocarlos@yahoo.com.br)

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